O dilema da barata


-Então você tá me dizendo que a sua felicidade depende da morte deste inseto?
Valter soltou a frase não só pra confirmar o que já esperava, mas também pra ver se assim, dita em voz alta, a informação fazia mais sentido pra ele. Não fazia, mas Cristina foi taxativa:
-É um jeito um pouco simplista de ver a situação, mas nem por isso incorreto. Eu quero essa barata morta. Agora.
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Luiza no quintal


Luiza recolhe as flores amarelas que o ipê derruba na grama. Pega todas as que consegue, enche uma das mãos com elas. Na outra mão tem um biscoito de polvilho, meio comido. Usa uma calça roxa com os joelhos sujos de terra. Sentada sobre umas pedras, os dedos escapando pra frente da sandália. Ficam pendurados, raspando o chão. Ela agora vai tirando as pétalas da flor, uma a uma. Até parece que precisa de confirmação. Não há espaço pra malquerer algum perto dela. Continuar lendo

Canto da Sereia


O bar mais triste do mundo é o Canto da Sereia. Numa praia muito triste do sul da Bahia, a meio caminho de nada e lugar algum, escora-se um barracão de madeira com quatro grandes janelas retangulares. Na frente tem uma varanda coberta com piso de cimento. Sempre há um cachorro por perto, que ninguém nunca alimenta. Continuar lendo

Ê lá em casa!


Em pé em frente à faixa de pedestres, ela espera o sinal abrir. Veste saia social e camisa – teve que se acostumar depois de formada. Os grandes óculos escuros servem de proteção pra muita coisa: o sol forte de março, a poluição da Avenida Paulista, a poeira levantada pelos carros, motos e ônibus que passam em enxames barulhentos a metros de seu rosto. Em volta, parte da fauna que habita aquele ecossistema estranho. Uma colônia de alunos de cursinho, gente com roupa de academia, engravatados. Um cara com uniforme de uma lanchonete carrega uma sacola de sanduíches, que provavelmente serão devorados sob a luz aconchegante de um monitor de computador.

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