O dilema da barata


-Então você tá me dizendo que a sua felicidade depende da morte deste inseto?
Valter soltou a frase não só pra confirmar o que já esperava, mas também pra ver se assim, dita em voz alta, a informação fazia mais sentido pra ele. Não fazia, mas Cristina foi taxativa:
-É um jeito um pouco simplista de ver a situação, mas nem por isso incorreto. Eu quero essa barata morta. Agora.
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Canto da Sereia


O bar mais triste do mundo é o Canto da Sereia. Numa praia muito triste do sul da Bahia, a meio caminho de nada e lugar algum, escora-se um barracão de madeira com quatro grandes janelas retangulares. Na frente tem uma varanda coberta com piso de cimento. Sempre há um cachorro por perto, que ninguém nunca alimenta. Continuar lendo

Ê lá em casa!


Em pé em frente à faixa de pedestres, ela espera o sinal abrir. Veste saia social e camisa – teve que se acostumar depois de formada. Os grandes óculos escuros servem de proteção pra muita coisa: o sol forte de março, a poluição da Avenida Paulista, a poeira levantada pelos carros, motos e ônibus que passam em enxames barulhentos a metros de seu rosto. Em volta, parte da fauna que habita aquele ecossistema estranho. Uma colônia de alunos de cursinho, gente com roupa de academia, engravatados. Um cara com uniforme de uma lanchonete carrega uma sacola de sanduíches, que provavelmente serão devorados sob a luz aconchegante de um monitor de computador.

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Encontros improváveis por motivos óbvios


“Se vendesse coragem, eu comprava só a coragem”, disse o velho. “Como não vende, me vê aí uma cachaça”, pediu ao Neco, dono do bar onde eu almoçava um contra filé à parmegiana bem razoável. Tinha a nítida atitude de quem procura alguém pra conversar. Me olhou de cima a baixo, e concluiu que servia.

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Obrigação de macho


-Então você tá me dizendo que a sua felicidade depende da morte deste inseto?
Valter soltou a frase não só pra confirmar o que já esperava, mas também pra ver se assim, dita em voz alta, a informação fazia mais sentido pra ele. Não fazia, mas Cristina foi taxativa:
-É um jeito um pouco simplista de ver a situação, mas nem por isso incorreto. Eu quero essa barata morta. Agora.

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Chocolate



No caixa da loja de conveniência, Alê esperava ansioso. Saíra no meio da chuva pra
comprar um chocolate, e agora imaginava feliz o momento em que mataria a vontade que o incomodava há uma semana. Chove torrencialmente no domingo à noite. Fernanda espera no carro. Ele gesticula, tentando dizer algo, e ela tenta decifrar através da enxurrada que escorre pelo para-brisa. Com uma barra grande de chocolate na mão, Alê articula as palavras mexendo a boca de forma exagerada, sem emitir som. Mesmo assim, ela abaixa o volume do rádio.