O dilema da barata


-Então você tá me dizendo que a sua felicidade depende da morte deste inseto?
Valter soltou a frase não só pra confirmar o que já esperava, mas também pra ver se assim, dita em voz alta, a informação fazia mais sentido pra ele. Não fazia, mas Cristina foi taxativa:
-É um jeito um pouco simplista de ver a situação, mas nem por isso incorreto. Eu quero essa barata morta. Agora.
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Ê lá em casa!


Em pé em frente à faixa de pedestres, ela espera o sinal abrir. Veste saia social e camisa – teve que se acostumar depois de formada. Os grandes óculos escuros servem de proteção pra muita coisa: o sol forte de março, a poluição da Avenida Paulista, a poeira levantada pelos carros, motos e ônibus que passam em enxames barulhentos a metros de seu rosto. Em volta, parte da fauna que habita aquele ecossistema estranho. Uma colônia de alunos de cursinho, gente com roupa de academia, engravatados. Um cara com uniforme de uma lanchonete carrega uma sacola de sanduíches, que provavelmente serão devorados sob a luz aconchegante de um monitor de computador.

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O Pastinha


É característico dos paulistanos não conhecer seus vizinhos. Uma amiga morava num prédio antigo no bairro do Paraíso, com apartamentos de grandes janelas e pé direito alto que abrigavam uma população heterogênea de aposentados, estudantes, profissionais liberais.

Como ninguém sabia nada da vida de ninguém, inventava-se:

 -Esse aí deve trair a mulher. Chega sempre tarde e fica se olhando no espelho do elevador, pra ver se não tá dando bandeira.

-Esse velhinho deve ter sido general da ditadura! Tá aqui escondido desde que acabou o regime militar. Qualquer dia baixa uma ONG aqui atrás dele e vai ser a maior chacrinha.
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Veja o verde


É triste, mas a verdade é que a classe média adestrou a fícus. Por natureza, é uma árvore portentosa, venerada por várias culturas. Dizem que foi debaixo de uma delas que Buda atingiu a iluminação. Hoje em dia, pegaram uma espécie mais delicada, torceram-lhe o caule e a colocaram em pequenos vasos, aos pares, pra enfeitar  a entrada dos edifícios residenciais ou de restaurantes “diferenciados”. Continuar lendo

Obrigação de macho


-Então você tá me dizendo que a sua felicidade depende da morte deste inseto?
Valter soltou a frase não só pra confirmar o que já esperava, mas também pra ver se assim, dita em voz alta, a informação fazia mais sentido pra ele. Não fazia, mas Cristina foi taxativa:
-É um jeito um pouco simplista de ver a situação, mas nem por isso incorreto. Eu quero essa barata morta. Agora.

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Chocolate



No caixa da loja de conveniência, Alê esperava ansioso. Saíra no meio da chuva pra
comprar um chocolate, e agora imaginava feliz o momento em que mataria a vontade que o incomodava há uma semana. Chove torrencialmente no domingo à noite. Fernanda espera no carro. Ele gesticula, tentando dizer algo, e ela tenta decifrar através da enxurrada que escorre pelo para-brisa. Com uma barra grande de chocolate na mão, Alê articula as palavras mexendo a boca de forma exagerada, sem emitir som. Mesmo assim, ela abaixa o volume do rádio.