Das roupas que perdi


Qualquer guru de auto ajuda me daria uma bronca por este texto. Consigo ver a figura de roupas claras, barba comprida e expressão serena me dizendo palavras sobre desapego, deixar ir, mandar para o universo. Mas a verdade é que sinto uma falta danada das roupas que perdi.

Veja, perdi muitas outras coisas nesta vida. Perdi uma luneta que ganhei de meus tios. Não sei como perdi uma luneta. Perdi a caneta tinteiro laranja que minha madrinha me deu quando passei no vestibular. Perdi o dinheiro que minha mãe me deu pra comprar o passe escolar do mês inteiro na sétima série.

Nada disso me fez mais falta do que as roupas que se foram. Perdi roupas novas e velhas, roupa “de sair” e “de ficar em casa”, perdi bonés e gorros de lã. Perdi relógios e chuteiras de futebol soçaite.

Fui criativo também nas circunstâncias. Minhas roupas se foram das mais variadas maneiras.

Uma vez, adolescentes, eu e dois amigos compramos umas bermudas. Iguais. De sarja, até os joelhos e com bolsos laterais. Uso destas até hoje, aliás. Comprei três. A marrom e a verde duraram uma eternidade. A preta durou um final de semana. Fui pular o portão da casa de um amigo, pra fazer graça pra umas meninas. A bermuda enganchou no portão e abriu no meio. “De fora a fora”, disse a dona Odete enquanto examinava a peça, balançando a cabeça como quem diz: “Não há o que fazer”. Quando a vó diz isso, é o fim da esperança. A vó chama o cós da calça de ”cavalo”. Foi bem no cavalo.

Oras, e os cachecóis? Perdi muitos. Eles sofrem daquele mesmo mal dos guarda chuvas: você chega em algum lugar, e o cachecol acabou de te quebrar um belo de um galho na rua. Assim que você passa pela porta, ele se torna redundante, e ao sair você nem lembra de pegá-lo. Tô nem ai pra guarda chuvas, mas queria meus cachecóis de volta. O mais legal deles ficou no banco de trás do carro de um amigo. Depois fui ver que nem amigo era, e daí doeu mais do que perder o cachecol.

Perdi uma jaqueta de veludo marrom. Perdi vários pares de óculos de sol –  no meio da Patagônia, no metrô, num passeio de bicicleta na Bahia e pra quem não tive coragem de dizer “não”. Perdi um chapéu panamá.

Perdi uma camiseta do único bar temático de snowboard jamais aberto no Nordeste brasileiro. O lugar era de uns amigos canadenses, e fizeram uma com meu nome atrás, quando fui visita-los. Foi nesta viagem, aliás, que perdi os óculos do parágrafo anterior.

Acho que foi na biografia do Tom Jobim que li sobre sua mãe, que uma vez perdeu um pé do sapato ao subir num bonde do Rio de Janeiro. Perante o choque dos ocupantes do coletivo lotado, chutou também o outro para a rua, rogando que quem encontrasse o outro pé ficasse logo com o par. Espero que boa parte das roupas que perdi tenha encontrado novos donos, que as deram uso e sentido. Não perdi as que dei pra quem precisava mais. Nem a camiseta do Timão que o Vô Oswaldo levou quando nos despedimos dele pela última vez. Essa eu gosto de pensar que troquei por um sorriso tranquilo dele.

Talvez o guru esteja mais satisfeito comigo agora. Mas se vir alguém na rua com minha jaqueta de veludo marrom, vou pedir de volta.

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5 respostas em “Das roupas que perdi

  1. Adorei Ney! Eu também sinto falta de muitas roupas que perdi, mas as que mais sinto falta são meus jeans tamanho 38.

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