Histórias de pais e filhos


Talvez sua mãe conte muitas historias sobre você. Talvez você não goste de todas. Mas sorri discretamente quando a escuta contar algumas delas, misturando a narrativa às suas próprias lembranças. Provavelmente não são aquelas que ela conta com mais freqüência, mas são as que você considera parte da formação da sua personalidade, das verdades e mitos fundadores do que você é.  “A memória é uma ilha de edição”, disse o sábio baiano.

Eu devia ter uns seis. A janela do sobrado em que morávamos era de madeira, com a tinta descascando em alguns pontos. O parapeito tinha um acabamento áspero que me ralava os joelhos, mas eu gostava de me aboletar lá em cima. Era o posto oficial pra ver a rua, esperar quem estava pra chegar, treinar a leitura de palavras novas nos letreiros das lojas no fim do quarteirão.

Às quintas feiras, tinha feira na rua, que ganhava muita vida logo cedo. De cima da janela, via as senhoras com sacolas pesadas, carrinhos de arame lotados de frutas e verduras. Uma vendedora de temperos, com sementes, folhas, pós e grãos guardados em saquinhos de papel pardo. Uma grande barraca de peixes. Mamão papaia vinha em caixas com uma palha que os protegia. Os gritos sobrepostos dos feirantes, que usavam aventais com que traziam desenhos de frutas, times de futebol, apelidos.

Interagia com tudo aquilo. Imitando os feirantes, ia baixando o preço à medida que a hora avançava, e as frutas melhores iam acabando. Aparentemente, eu dava os descontos muito cedo, porque sempre levava bronca por abaixar o preço antes da hora.

E me davam frutas, várias delas. Um cacho de uvas, uma fatia de melancia, uma pêra.

Na hora de desmontar a feira, as kombis e caminhões congestionavam a rua, manobrando entre caixas, barracas, sacos e a gente apressada que ia catando o que ficava pelo chão. No fim da tarde, vinham os garis. Depois, um caminhão pipa passava com um jato forte lavando do asfalto as cascas de fruta, escamas de peixe e talos de verduras. A água fazia barulho quando batia no nosso portão de metal, feito pelo meu avô.  A molecada “pegava rabeira” – fivacam pendurados atrás do caminhão até o motorista tocar todo mundo dali, aos gritos. Caí no meio da rua na única vez que tentei fazer igual.

Ainda vou à feira. Minha irmã me pede que compre alho de um senhor cego, mesmo quando não precisamos de alho. A máquina barulhenta mói a cana, e grupos de estudantes e trabalhadores cercam a barraca de pastel.

Hoje Luiza come banana amassada com aveia e mel. Come ameixas daquelas cheias de suco, que lhe escorre pelo queixo. Arranca as jabuticabas do pé antes mesmo de estarem maduras.

Talvez um dia eu conte muitas historias sobre ela, e ela goste de algumas.

 

 

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Uma resposta em “Histórias de pais e filhos

  1. o que fica na memória, não tem preço, e nos reporta a lugares que nunca mais poderemos realmente visitar! muito bom!

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