Amigos e estranhos


Noite de sexta feira. O visor do celular me conta que alguém em um DDD diferente quer falar comigo. Sou desses que atendem ao telefone, sabe? Me incomoda a idéia de um telefone tocando sem ser atendido – se alguém deu-se a trabalho de ligar, merece certa consideração.

E ainda bem que atendi. Era uma ligação que iria me deixar muito mais leve, como quando te ligam pra contar que um parente doente teve melhoras ou avisar que a visita chata não vem mais.

Atendo e ouço a voz de um amigo de infância, dos quais eu tenho três ou quatro. Ele me conta bobagens: o filho da Silvinha nasceu, seu pai foi viajar, o cunhado fechou a loja.

As bobagens me levam pra mais perto de casa. Revejo a loja de ferragens que baixou as portas, lembro dos planos de viagem do Seu Marcos. E a Silvinha, hein, quem diria? Já mamãe!

A conversa termina com promessas de um encontro, na próxima vez que for a SP. E passa sem menção alguma ao incidente que tinha nos afastado, e isso traz um alívio enorme. Um tom de voz estranho ao fim de uma conversa havia bastado pra trazer desconforto a uma amizade antiga, desconforto esse que durou pelos meses que separaram o ultimo contato desta ligação. Então não era nada, afinal – eu havia entendido mal, e passei os últimos tempos imaginando se havia estragado uma amizade ou não.

Interessante esse poder que amigos têm de influenciar nossas vidas, mesmo de longe. Aliás, não só os amigos – acho que estamos mais conectados com os outros do que imaginamos.

Outro dia quase causei um acidente com um motoqueiro. Indo trabalhar, distraído, passei mais rápido do que devia em um cruzamento, e quando vi o cara já estava bem perto de bater na lateral do meu carro. Acelerei e consegui passar antes dele bater. Eu estava errado e gesticulei pedindo desculpas, mas acho que ele não viu, por causa dos vidros escuros. De qualquer forma, ele xingou bastante, como esperado.

Incomodou-me a idéia de causar perigo a um estranho, e por um bom tempo fiquei pensando que aquele cara ainda devia estar com raiva de mim, e isso é ruim.

Ontem à noite fui à farmácia. Vai-se muito à farmácia depois dos trinta. Lá encontrei outro estranho, que pediu à moça do balcão um teste de gravidez. Em frente à loja, o aguardava outro rapaz, de mãos nos bolsos. A atendente lhe deu a caixa e eu lhe desejei boa sorte ao estranho, sem saber qual o resultado que ele considera boa sorte. Ele parecia preocupado. Mas tem ao menos um bom amigo, e isso é bom.

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4 respostas em “Amigos e estranhos

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