Luiza no quintal


Luiza recolhe as flores amarelas que o ipê derruba na grama. Pega todas as que consegue, enche uma das mãos com elas. Na outra mão tem um biscoito de polvilho, meio comido. Usa uma calça roxa com os joelhos sujos de terra. Sentada sobre umas pedras, os dedos escapando pra frente da sandália. Ficam pendurados, raspando o chão. Ela agora vai tirando as pétalas da flor, uma a uma. Até parece que precisa de confirmação. Não há espaço pra malquerer algum perto dela.

Interrompe a brincadeira quando ouve o barulho de uma uvaia caindo na grama. Levanta-se, vira e corre pra pegar a fruta. Muitas outras estão espalhadas ao redor, e a pequena agora se diverte jogando-as na floreira feita de dormentes de madeira. Acha uma pá e abre um sorriso ao descobrir que pode pegar as uvaias com ela. Agora aperta a fruta bem madura na mão, até o suco escorrer entre os dedinhos e pingar na camiseta. Acho que a mancha nunca sairá de lá. Outro sorriso.

Encostada a um vaso, a Itá espicha as patas, tostando sob o sol da manhã. Aos dezesseis anos, a dobermann mais mansa do mundo parece aproveitar muito bem cada dia. Ainda tem energia pra correr atrás do casal de bem-te-vis que mora no ipê. Toda tarde eles vêm, toda tarde ela os persegue, até que pousam num galho mais alto e ela os deixa em paz. Mas a paz da Itá não dura muito: seu nome foi uma das primeiras coisas que a Luiza aprendeu a falar, e pelo visto gostou do som. Lá vem ela repetindo “Itá, Itá, Itá!”, e a cachorrinha percebe que é melhor sair dali se quiser continuar tomando seu banho de sol em paz. Luiza fecha os punhos e treme os braços de excitação quando a Itá passa correndo por ela.

Tentando alcançá-la, tropeça e cai. Levanta assustada, com as mãozinhas sujas de terra, e olha pra mim. Entendo que minha reação vai determinar a dela: se fizer cara de preocupação, ela abre o berreiro. Sorrio, e ela decide que não doeu. Abro a mangueira pra lavar as mãos dela, e o rostinho se ilumina como sempre acontece quando ela faz alguma grande descoberta. Vê a água jorrar, escuta o barulho do jato forte, e se aproxima, curiosa. Fecho um pouco a torneira e o fluxo agora é suave, e ela se sente segura pra colocar as mãozinhas ali debaixo. Esfrega uma na outra, imitando meu gesto.

Senta-se sobre um dormente e experimenta com sons diferentes: assopra, vibra os lábios, repete sílabas, experimenta com o ritmo. Vai aos poucos construindo sua biblioteca de lembranças, sensações, gostos, cheiros e cores. Referências que depois a trarão lembranças boas que talvez ela nem saiba de onde vêm. Sentado ao seu lado, observo enquanto ela tenta apoiar uma fruta do lado errado da pá. Mostro a ela o jeito certo. Ela, impaciente, desmancha o que fiz e coloca de novo a uvaia do jeito que ela quer. É aí que eu percebo quem está ensinando quem. Ela sorri uma vez mais.

Feliz dia dos pais!

 

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