O Pastinha


É característico dos paulistanos não conhecer seus vizinhos. Uma amiga morava num prédio antigo no bairro do Paraíso, com apartamentos de grandes janelas e pé direito alto que abrigavam uma população heterogênea de aposentados, estudantes, profissionais liberais.

Como ninguém sabia nada da vida de ninguém, inventava-se:

 -Esse aí deve trair a mulher. Chega sempre tarde e fica se olhando no espelho do elevador, pra ver se não tá dando bandeira.

-Esse velhinho deve ter sido general da ditadura! Tá aqui escondido desde que acabou o regime militar. Qualquer dia baixa uma ONG aqui atrás dele e vai ser a maior chacrinha.
Continuar lendo

Desafios gastronômicos


Olhei o prato fumegante na minha frente. Tenras fatias de bife de fígado, rodelas de cebola coradas na gordura da carne e pedaços suculentos de jiló. Sogro e cunhado me encaravam, ansiosos. Tinha mais platéia: ao meio dia de um sábado, o Mercado Municipal de Belo Horizonte é mais lotado do que show da Rita Cadillac na cadeia. Continuar lendo

Veja o verde


É triste, mas a verdade é que a classe média adestrou a fícus. Por natureza, é uma árvore portentosa, venerada por várias culturas. Dizem que foi debaixo de uma delas que Buda atingiu a iluminação. Hoje em dia, pegaram uma espécie mais delicada, torceram-lhe o caule e a colocaram em pequenos vasos, aos pares, pra enfeitar  a entrada dos edifícios residenciais ou de restaurantes “diferenciados”. Continuar lendo