A mulher que odiava o Papão da Curuzú


Não acredito que ela me convenceu a vir. Cá estou eu, em frente a uma quase-amiga que não via há anos. Ela me resgatou em alguma rede social, e disse que precisava muito me ver pessoalmente. Garantiu que isto não era “um encontro”. Nos encontramos num bar perto da Paulista. Aquele parecia um assunto pra três cervejas. Pedi a primeira delas e a bebi quase sozinho: ela mal tocou no copo. Ela fala mais que a boca.

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Faxina


Gastou o fim de semana inteiro nisso. Começou pelas roupas. Lavou as brancas e as coloridas, separadas. Esfregou punhos, golas e embaixo das axilas. Tirou manchas. Depois secou tudo na maquina. Pregou botões. Lavou a louça. Areou panelas. Limpou a pia e lavou o chão da cozinha. Limpou e desocupou os armários. Esvaziou a geladeira, jogou fora o que estava passado. Botou numa caixa o que era perecível. Desmontou o computador. Enrolou cabos, empacotou teclado, mouse, câmera e fone de ouvido.

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Vinte e um anos


Ouço com atenção o que diz o rapaz sentado à minha frente. O bar em que estamos tem o péssimo hábito de deixar as garrafas vazias de cerveja em cima da mesa, como troféus ou lembretes. Tomei as primeiras duas junto com ele – é preciso criar intimidade e segurança, nestas situações. Agora bebo água com gás – é preciso manter-se no controle, nestas situações. Desvio dos cascos de vidro escuro pra olhar em seus olhos, ler suas palavras antes mesmo que as diga.

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Aniversário


Uma das boas coisas que nos trazem os amigos são outros amigos. Se um sujeito me escolheu para seu amigo, posso sem modéstia presumir que tem bom gosto para amigos; portanto, não é de se estranhar que alguns amigos de nossos amigos tornem-se nossos também.

Esse caminho de redundâncias me levou, numa terça feira à noite, à casa do João. Outrora amigo do amigo, ele agora perdeu o aposto e é só amigo.
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Barbeiro


O saudosismo e a nostalgia são armas que encontramos pra nos defender do que é novo e nos assusta. Nos agarramos com força a eles, em busca de uma zona de conforto na qual tudo é familiar. É reconfortante entrar numa delas. Aconteceu comigo outro dia: fui ao barbeiro.

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Groselha com leite


Nunca entendi porque duas Brasílias. Mas o Vô Osvaldo tinha duas Brasílias. Uma bege, a outra devia ser branca. A garagem da casa da Coronel Silvério era coberta por umas telhas cujo nome eu não lembro, mas que eram o orgulho da Vó Maria. As duas Brasílias ficavam lado a lado, entre samambaias em vasos pendurados nas vigas de madeira da cobertura. Mas era ruim de jogar futebol lá – o portão era baixo, e cada vez que a bola ia pra rua, era um desassossego.

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